O
VAMPIRISMO
E AS RELIGIÕES

Nesta tópico tentaremos sinteticamente descrever a relação das religiões com o mito e a prática vampírica.

Cabe salientar que o mito do vampiro é inseparável das religiões e manifestações religiosas, místicas e folclóricas dos povos em que ocorre, e todos entrelaçados por complexas redes de significados e práticas rituais de vários tipos, especialmente de defesa contra os mesmos.

Logo, embora não possamos falar que o vampirismo seja em tais povos uma religião em si, é impossível separá-lo das religiões locais da África, Ásia, Europa, Américas etc, e a toda carga de significados sobrenaturais e sagrados associados às mesmas. O mito do vampiro "dialoga" intimamente com todos os demais Deuses, Deusas, Deus, isto quando ele em si mesmo não é um Deus, Deusa ou entidade sobrenatural e divina.

Assim, e sempre lembrando as ressalvas que a antropologia faz ao uso indiscriminado do termo "religião" como explicamos em "VAMPIRISMO É RELIGIÃO?", podemos afirmar que o mito do vampírico e suas práticas místicas, de magia etc, fazem parte do conjunto de mitos e crenças religiosas de um povo, quer através de rituais negativos (em que a pessoa tenta se proteger do vampiro apelando a seus Deuses etc), quer através de rituais positivos (geralmente rituais propiciatórios, em que se tenta entrar em contato e obter favores de tais entidades, como entre os antigos Astecas e na Índia atual). Não há como separar seu mito e práticas das religiões locais, não pelo menos dos mitos que nos chegaram e que a bibliografia especializada e etnografia registraram.

Outro ponto importante é distinguir magia de religião ao mesmo tempo que ver suas semelhanças. Este ponto é importante pois o vampirismo é de uma forma geral, em quase todos os mitos, associado à práticas místicas de magia, feitiçaria, yoga etc. Normalmente se aceita em antropologia que magia é um procedimento mais técnico, em que o mago tem uma postura dominadora sobre as entidades, pessoas desencarnadas anjos, demônios, Deuses e energias sem forma do mundo espiritual. Já o religioso teria uma conduta mais humilde diante dos Deuses, aos quais evocaria e cultuaria através de incensos, velas, orações, oferendas etc a fim de obter suas ajudas em assuntos diversos. No entanto esta separação entre magia e religião é altamente artificial visando mais fins didáticos que expressar a realidade empírica dos dados. Muitas são as exceções a esta separação. Assim o mago praticante de goécia, um tipo de magia em que se evoca os 72 "demônios" descritos nas "Clavículas de Salomão", um dos textos de magia mais antigos da Europa Cristã, embora a atuação do mago seja de domínio sobre tais entidades, ele o faz em nome do Deus Cristão, de seus santos e Obra, em uma atitude altamente religiosa e humilde.

Em um outro exemplo, quando lemos o texto ritual egípcio para seus mortos, o "Pert em Hru" ou "Saída para a Luz" (conhecido como "O Livro dos Mortos"), percebe-se que a relação dos sacerdotes e praticantes deste ritual é de humildade religiosa e ao mesmo tempo de imensa autoridade sobre os Deuses, a ponto de que o oficiante do ritual diz: Eu sou o Deus tal, sou Horus, sou Thoth, Sou Isis, etc.

É impossível separar o mito do vampiro das religiões dentro das quais ocorre e é parte integrante. Algumas vezes tem papel de destaque dentro da religião local (como na India, havendo até expressões divinas e associadas ao panteão divino e ao "bem" em sentido religioso da cultura local (o conceito de "bem" e "mal" pode variar de cultura para cultura, e de época para época), como o é a Deusa Kali que apresenta a prática de vampirismo quer em seu mito, quer na forma como é cultuada), noutras tem papel muito secundário e como inimigo de Deus e do "bem" em sentido religioso da cultura local, e apenas dialoga com a religião oficial (como no cristianismo que o identifica a Lúcifer e Satan), em outras tem papel semi oculto e iniciático, como em todo o culto dos mortos vivos (múmias) no Antigo Egito e a sobrevivência da alma no túmulo e no além.

Mas em todos os casos, é um fenômeno religioso, sagrado
e associado ao que na Europa se denominará
de Ciências Ocultas.


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